Você abre o extrato, olha o número e sente aquele aperto. “Eu mereço mais.” Talvez olhe de canto para o colega que ganha mais fazendo quase a mesma coisa. E aí chega a pergunta que trava todo mundo: como pedir aumento sem passar vergonha, sem ouvir um não seco, sem estragar a relação com quem manda?
Vou te contar uma coisa que levei anos para entender. Pedir aumento parece um problema de técnica — a frase certa, o momento certo, o argumento matador. Mas quase nunca é isso. Passei mais de uma década do outro lado dessa mesa: fui executivo em operações comerciais no Grupo Globo e, hoje, coordeno um programa de pós-graduação. Vi muita gente entrar na minha sala para pedir. Vi gente pedir e conseguir. Vi gente pedir e ouvir não. E vi — isso me marcou mais — gente que passou a carreira inteira sem pedir uma única vez.
O que eu aprendi olhando de lá para cá é que pedir aumento é, antes de tudo, uma arte de observação. Vamos por partes.
Antes de pedir aumento, leia o contexto da empresa
O primeiro erro é achar que o seu merecimento resolve tudo. Não resolve. O merecimento é você. O contexto é o mundo onde você vai pedir.
A empresa está em crise? Isso não significa, por si só, “não peça”. Depende de onde você está. Se a sua atividade é justamente o que segura a empresa em pé numa crise — vendas numa casa que vive de vendas, por exemplo —, o seu pedido pode ser mais forte ainda: eles não podem te perder. Mas se a sua área não é o coração da operação e a maré está baixa, talvez seja hora de esperar e não queimar o cartucho cedo demais.
Observar isso não é covardia. É respeito pela conversa que você quer ter.
Sua relação com quem decide — e o valor da sua área
O segundo ponto quase ninguém para para pensar: até onde a sua gestora, o seu gestor, consegue ir por você?
Pedir aumento é pedir para alguém brigar por você numa mesa onde você não está. Duas coisas pesam nessa briga. A primeira é o valor da sua área dentro da empresa — uma área que traz dinheiro tem muito mais tração do que uma área de apoio. A segunda é a sua relação real com quem decide. Não estou falando de puxar saco. Estou falando de essa pessoa te olhar e pensar: “essa entrega é verdadeira”.
E aqui vem uma pergunta honesta, daquelas que só dá para responder no silêncio. Você é a profissional que entrega de verdade? Ou é aquela pessoa que faz o mínimo e, na hora vaga, está vendendo alguma coisa no corredor achando que ninguém repara? A gente repara. Sempre. Se você entrega, vá de consciência limpa. Se você sabe que está aquém, o pedido talvez não seja o próximo passo — mostrar o trabalho primeiro é.
Chega um momento nessa conversa em que os passos táticos param e sobra uma coisa mais funda, difícil de dizer no meio do expediente. É exatamente sobre isso que existe o ECOA Escuta. Se você está travado nessa decisão — pedir, não pedir, mudar de área, mudar de vida —, existe um espaço para você dizer em voz alta o que não consegue dizer em outro lugar. É uma conversa de 15 a 20 minutos, gratuita, sem fórmula pronta. Inscreva-se aqui e vamos conversar.
O “banho de loja”: formação e postura contam
O terceiro ponto é aquele que está mais na sua mão. O que você entrega hoje ainda agrega valor de verdade? Ou você travou no tempo?
Isso hoje é fácil de rever. Sua empresa começou a trabalhar com uma inteligência artificial que você não domina? Existem cursos e certificações gratuitas, algumas de poucas horas. Foi comprada por um grupo estrangeiro e agora o inglês pesa? Você já começou, pelo menos? “Ah, mas eu tenho família” — todo mundo tem. Ter um diferencial nunca foi confortável. Demonstrar evolução, buscar uma formação nova, é o que muda a conversa.
E não é só conteúdo. É postura também. Um jeito diferente de se colocar, de se vestir, de se apresentar — um banho de loja mesmo. Olhe para você como uma empresa olha para um produto: você não venderia um produto todo amassado. Não é sobre comprar um blazer e sair pedindo. É que a sua segurança muda. E a segurança muda a conversa toda.
Só que aqui eu preciso te dizer uma coisa que quase nunca entra nos vídeos sobre o assunto.
O valor que a empresa paga não é o valor que você tem
Repare no que esses três passos têm em comum. Todos tratam você como um produto a ser melhor precificado. E isso funciona — para pedir aumento, funciona. Mas há uma armadilha silenciosa aqui, e ela é a razão pela qual tanta gente sai de uma negociação de salário se sentindo estranhamente menor, mesmo quando conseguiu o dinheiro.
A armadilha é confundir duas coisas que parecem a mesma: o seu valor de mercado e o seu valor como pessoa. O primeiro é o que uma empresa está disposta a pagar por uma função, num momento, num contexto. Ele sobe, desce, depende de crise, de área, de humor de diretor. O segundo não é emitido por ninguém — nem por um chefe, nem por um holerite.
Quando a gente esquece essa diferença, o pedido de aumento vira um julgamento sobre quanto a gente vale como gente. Aí trava mesmo. Porque o não deixa de ser “não agora, não neste contexto” e vira “você vale menos do que pensava”. E isso é grande demais para caber numa conversa de RH.
Tratar o trabalho como questão de vida — e não só como problema de desempenho — começa aqui: sabendo de onde vem o seu valor antes de sentar naquela mesa. Essa é uma pergunta antiga, mais antiga que qualquer plano de carreira. Há uma tradição que eu carrego e que diz uma coisa incômoda para o mundo da produtividade: o seu valor não é conquistado, é recebido. Você não precisa performar para tê-lo. Não estou te pedindo para acreditar nisso agora. Só para reparar como a conversa sobre aumento fica mais leve quando o seu valor como pessoa não está em jogo dentro dela.
O maior erro é nunca pedir aumento
E chegamos no ponto que mais me dói. Convivi com colegas, especialmente nos anos de Globo, que passaram a vida profissional inteira sem pedir um aumento sequer. Resultado: nunca ganharam. Vinte, vinte e cinco anos de carreira. Travavam. Ou não se sentiam merecedores, ou não sabiam como, ou terceirizavam: “meu diretor tem que reconhecer e me dar”.
Alguns gestores até funcionam assim. Muitos não. Muitos precisam que você se mova. Se você avalia que faz um bom trabalho, que a sua entrega vale mais, você deve pedir — com cuidado, mostrando o valor, mostrando o quanto isso te motiva. Mas peça. Não vire aquela pessoa que reclama a vida inteira que nunca deram o aumento, quando ela também nunca pediu.
Sair dessa zona não é confortável. Pedir aumento nunca vai ser. Mas dá para fazer de um jeito leve e claro, porque no fundo é papo humano. Do outro lado da mesa também tem gente que quer aumento, que tem medo, que tem conta pra pagar. Olho no olho, mostrando o valor que você entrega e o quanto ele é justo — é assim que essa conversa acontece de verdade.
E se, lendo até aqui, você percebeu que o nó não é bem o aumento — é o trabalho todo, é o cansaço, é a sensação de estar no lugar errado —, esse é exatamente o tipo de coisa que a gente escuta no ECOA. Sem púlpito, sem diagnóstico, sem julgamento. Só escuta. Preencha o formulário e vamos marcar uma conversa gratuita.
A pergunta que fica
Não vou te dar uma fórmula de fechamento, porque ela não existe — cada situação é a sua, do seu momento, e é isso que torna esse assunto tão particular.
Vou te deixar com a pergunta que, para mim, vem antes de todas as técnicas: você já deixou de pedir um aumento que achava justo? E, se deixou, o que exatamente travou — o contexto lá fora, ou algo aqui dentro, sobre o quanto você acha que vale?
Pensa nisso com calma. E, se quiser pensar em voz alta, você sabe onde me encontrar.
Daniel Ladeira
ECOA Escuta — o trabalho como questão de vida.
