Quem escuta do outro lado
Meu nome é Daniel Ladeira.
Antes de falar do ECOA, deixa eu ser honesto sobre o lugar de onde falo — porque quem vai te escutar deve, no mínimo, se apresentar direito.
O percurso: os dois lados da mesa
Passei quase quinze anos no Grupo Globo, os últimos como Gerente de Operações Comerciais, liderando equipes em São Paulo e no Rio. Depois troquei a empresa pela sala de aula: sou doutor em Comunicação pela Universidade de São Paulo (USP), com equivalência reconhecida pela Universidade de Málaga e pala Universidade Nova de Lisboa e carrego mais de quinze anos de docência e pesquisa no ensino superior entre Brasil, Portugal e Espanha. Hoje sou professor e coordeno programas de mestrado na UTAMED, em Málaga, além de lecionar em universidades em Portugal. No Brasil fui professor na ESPM em São Paulo, onde também atuei como Supervisor Pedagógico, Supervisor de Estágios e Supervisor do Centro Experimental de Jornalismo.
Conto isso por dois motivos. Primeiro, porque credencial é uma forma de respeito: você tem o direito de saber quem está do outro lado da escuta. Segundo, porque vivi o mundo do trabalho dos dois lados da mesa — de quem se candidata e de quem contrata, de quem é gerido e de quem lidera. Quando a gente conversa sobre carreira aqui, não é teoria de guru: é de quem já leu muito currículo, conduziu muita equipe e atravessou as próprias viradas.
Meu ofício, há duas décadas, é a comunicação. E o que essas duas décadas me ensinaram é desconfortável de admitir: comunicação, quando se leva a sério, é muito menos sobre falar bem do que sobre entender o que a outra pessoa está de fato dizendo. Passei anos aprendendo a construir discurso, audiência e narrativa — e demorei bem mais para aprender a ficar quieto e escutar. O ECOA nasceu exatamente dessa diferença.

A casa
Sou casado com a Carol Corrêa, bailarina profissional de flamenco — o que significa que aprendi, dentro de casa, que existem coisas que o corpo diz antes de a boca conseguir. Juntos somos pais da Zoé, nossa filha, amor das nossas vidas e alegria da nossa casa. E temos o Batuta, nosso rough collie blue merle, cheio de personalidade, parceria e carinho — o único membro da família que pratica escuta incondicional sem nenhum treinamento.
Falo da minha família aqui porque o ECOA Escuta não é um projeto que eu toco de um escritório. É um projeto que atravessa a minha vida — e uma casa com uma bailarina, uma criança e um collie é, todos os dias, um exercício de escutar gente muito diferente de mim.
A fé de onde eu falo
Aqui vai a parte que mais importa, dita sem rodeio:
Eu creio em Jesus como Deus. Não como personagem histórico interessante, não como professor de ética entre outros. Como Deus. Essa é a minha fé, e eu não a escondo.
E, ao mesmo tempo, não faço parte de nenhuma igreja. Não por mágoa virada bandeira, não por rebeldia — mas porque, no meu percurso, descobri uma liberdade em seguir Jesus diretamente que não quero mais trocar. A liberdade de perguntar sem medo. De duvidar em voz alta. De ler o texto sem alguém me dizendo antes o que ele significa.
Isso me coloca num lugar raro para conduzir o ECOA: entendo quem está dentro da igreja, porque estive. Entendo quem saiu, porque saí. E não tenho nenhum interesse em te puxar para nenhum dos dois lados. Não sou pastor recrutando nem ex-crente militando. Sou alguém que segue Jesus em liberdade e que descobriu que muita gente precisa, antes de qualquer resposta, de alguém que escute a pergunta inteira.
E se você segue outra fé, ou não segue nenhuma? É bem-vindo do mesmo jeito. Não escondo em que creio, mas não vim te convencer de nada — vim escutar. Aqui a mesa é grande, e o seu lugar nela não depende de você acreditar como eu.
Por que “escuta”
Porque foi o que faltou. Nas centenas de conversas que tive ao longo dos anos — como gestor, professor, amigo, e como alguém que também atravessou as próprias travessias — o padrão que sempre voltava era este: as pessoas não estavam procurando resposta. Estavam procurando um lugar onde a pergunta delas coubesse.
O ECOA é esse lugar. Sem púlpito, sem diagnóstico, sem julgamento. Só escuta.
Um abraço,
Daniel Ladeira
