Como conseguir emprego sem vaga aberta: o que funcionou

Você atualizou o currículo, montou uma lista de empresas, se candidatou a dezenas de vagas. E depois veio o silêncio. Nenhuma resposta, nenhum retorno, nem sequer um “não”. Se você está aí, este texto é para você — mas já aviso: ele não é sobre melhorar o currículo.

É sobre o que eu fiz quando cheguei em Portugal e descobri, do jeito mais duro possível, que as vagas que mudaram a minha vida profissional não existiam antes de eu conversar com alguém.

Como conseguir emprego sem vaga aberta: o que eu descobri por necessidade

Trabalhei quase 15 anos na TV Globo, sempre dando aula em universidades ao mesmo tempo. Pedi demissão duas vezes para me dedicar à vida de professor universitário. Na última, eu estava saindo do Brasil.

Antes de vir, pedi demissão da ESPM São Paulo, onde eu dava aula, para fazer o pós-doutorado em Portugal. Eu tinha planejado tudo. Prestava consultoria para várias empresas, tinha receita prevista, tinha um plano.

Eu tinha planejado tudo, menos a pandemia da COVID-19.

As empresas para as quais eu prestava consultoria sofreram um abalo sísmico. Em poucas semanas eu me vi sem receita e sem trabalho, num país novo, em lockdown, com tudo fechado. E a pergunta que ficava era muito simples e muito grande: o que eu vou fazer agora?

A resposta que encontrei não foi enviar mais currículos. Foi outra: eu preciso, obrigatoriamente, conversar com gente que eu não conheço.

Por que quem só envia currículo costuma ficar parado

Existe uma pesquisa que explica bem o que eu vivi na prática, e ela vem de uma das autoras mais sólidas sobre transição de carreira: Herminia Ibarra, professora da London Business School.

No livro Working Identity, publicado em 2003, Ibarra acompanhou profissionais no meio da carreira que queriam se reinventar profissionalmente. E o que ela identificou contraria quase tudo o que os “especialistas em carreira” costumam dizer.

A ideia corrente é que primeiro você descobre o que quer, depois age. Ibarra observou o contrário: o saber vem do fazer. Quem conseguiu completar a travessia não foi quem ficou planejando a mudança com perfeição. Foi quem começou a andar — e foi entendendo o caminho enquanto caminhava.

E um dos três movimentos que ela descreve é justamente este: interagir em novas redes de pessoas. Conversar com gente nova.

Não é networking no sentido de coleção de contatos. É outra coisa. É se expor a mundos que você ainda não conhece, para descobrir possibilidades que não estavam na sua lista quando você começou a procurar.

Os casos reais: cinco lugares, nenhuma vaga anunciada

Deixa eu ser concreto, porque conselho sem exemplo não serve para nada.

Factory Braga

Sem conhecer ninguém em Portugal, comecei a usar o LinkedIn de forma deliberada: pedi conexão com reitores de universidade, diretores de área, professores das mesmas áreas em que eu atuava e empresas da minha região.

Foi assim que descobri um espaço de coworking em Braga que também oferecia cursos de marketing digital e empreendedorismo digital. Me apresentei, falei do meu perfil. Dias depois me escreveram: “Daniel, a gente podia criar cursos juntos.”

Não havia vaga. Houve conversa.

ISET, no Porto

Mesma lógica. Universidade privada, sem vaga anunciada. Descobri o nome de quem estava na direção, mandei mensagem pelo LinkedIn, marquei um café. Em um mês eu estava contratado.

IPCA — Politécnico do Cávado e do Ave

Esse é o caso que as pessoas acham impossível, porque é uma instituição pública e existe a ideia de que só se entra por concurso. Descobri o diretor, mandei mensagem, tomamos um café. Meses depois fui convidado para ser professor.

Instituto Politécnico de Viana do Castelo e Utamed

O mesmo processo se repetiu. Hoje estou full-time na Utamed, na Espanha, onde coordeno dois programas de mestrado.

Cinco instituições. Nenhuma com vaga anunciada quando eu bati na porta.

Antes de continuar: uma ressalva honesta

Se você precisa de dinheiro este mês, continue enviando currículos também. Não pare.

O que estou descrevendo aqui leva semanas, às vezes meses. É o que constrói o próximo ano, não a próxima semana. Quem te promete resultado em sete dias está vendendo alguma coisa. Eu não estou.

E preciso dizer também o que ninguém coloca no vídeo motivacional: tive muitas ausências de resposta. Muitas mensagens que nunca foram lidas, muitos cafés que não aconteceram. Isso faz parte do percurso. Não é sinal de que você está fazendo errado.

Por onde você pode começar hoje

Se você ainda não tem perfil no LinkedIn, crie. É a ferramenta mais direta que encontrei para chegar em quem decide.

Depois disso, algumas frentes concretas:

  • Professores e ex-professores. Eles conhecem gente da área e costumam responder.
  • Ex-colegas de trabalho. Não para pedir emprego — para saber o que eles estão vendo no mercado.
  • Pessoas que fazem o que você quer fazer. Mesmo que estejam em outra cidade ou outro país.
  • Empresas que você realmente quer. Não a lista de todas as empresas que existem. As que você quer. Descubra quem dirige a área e manifeste interesse.
  • Um café, mesmo virtual. A conversa não precisa ter pauta de negociação. Ela precisa acontecer.

Se este é o seu primeiro emprego, o caminho começa mais perto: converse com a família, busque conexões de segundo grau — o amigo do amigo, o primo que trabalha na área — e peça aconselhamento profissional em vez de pedir vaga. As pessoas costumam gostar de aconselhar. E, nesse processo, você fica exposto a oportunidades que não estavam listadas em lugar nenhum.

O que está por trás disso tudo

Reparei numa coisa, olhando para trás, e ela não é uma técnica.

Enviar currículo é uma atividade que se faz sozinho. Você senta, anexa, clica, espera. É segura, é confortável, e permite que você continue se sentindo produtivo enquanto nada muda.

Conversar com uma pessoa nova é outra coisa. Exige que você diga em voz alta quem você é e o que está procurando — sem ter certeza da resposta. Exige aceitar o silêncio de quem não responde. É uma exposição.

E talvez seja exatamente por isso que funciona. Porque a travessia profissional não é um problema de logística que se resolve com mais candidaturas. É uma questão de identidade: quem eu sou agora, e quem estou me tornando.

Isso não se resolve na frente da tela. Se resolve na frente de alguém.

A pergunta que fica

Não vou terminar com uma fórmula, porque não tenho.

Vou terminar com a pergunta que eu tive que fazer a mim mesmo, num apartamento em Portugal, em lockdown, sem receita:

Quantas das minhas horas de procura de emprego são gastas sozinho — e quantas são gastas na frente de outra pessoa?

Se a resposta te incomodou um pouco, talvez seja por aí que comece.

Vamos conversar sobre a sua vida profissional?

Eu ofereço um encontro gratuito de 15 a 20 minutos, olho no olho. Não é mentoria, não é terapia, não é consultoria. É um espaço para você dizer em voz alta o que está atravessando no trabalho — sem púlpito, sem diagnóstico, sem julgamento.

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Assista ao episódio completo

Este texto nasceu de um episódio do ECOA Escuta, onde conto essa história em detalhe. Se preferir ouvir, o episódio também está no Spotify.

E se você está numa transição profissional mais ampla — não só procurando uma vaga, mas repensando o próprio caminho —, gravei também um episódio sobre os três caminhos para quem está em transição de carreira.


Daniel Ladeira é doutor em Comunicação pela USP, trabalhou quase 15 anos na TV Globo e hoje coordena dois programas de mestrado na Utamed, na Espanha. Vive entre Braga e Málaga. O ECOA Escuta é um espaço de escuta para quem trata o trabalho como questão existencial, e não como problema de desempenho.

ECOA — Equilíbrio · Coragem · Olhar · Autonomia.
Recuperar o equilíbrio, ganhar coragem para um novo olhar e voltar a ter autonomia sobre o próprio trabalho.

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