A insatisfação no trabalho costuma chegar sem aviso: no domingo à noite, na segunda de manhã, naquele aperto no peito antes de abrir o e-mail. Às vezes é um incômodo surdo. Às vezes é mais forte — você chega a odiar o que faz ou o lugar onde faz. Seja qual for o grau, eu quero começar por um ponto que muda tudo: isso não é um problema de desempenho seu. É uma questão existencial. São horas demais da sua vida dedicadas ao trabalho para tratá-lo como se fosse só uma linha no currículo.
Neste texto eu proponho três caminhos concretos para sair do ponto de incômodo. Não são fórmulas mágicas nem promessas de sucesso. São rotas — cada uma com uma referência séria por trás — para você recuperar autonomia sobre o próprio trabalho.
Caminho 1: buscar um novo emprego (mas sem planejar da poltrona)
O primeiro caminho é o mais óbvio: procurar outro emprego. Aqui entra o trabalho da professora Herminia Ibarra, da London Business School, no livro Working Identity (2003). Ela entrevistou centenas de profissionais em processo de reinvenção no meio da carreira e descobriu uma coisa contraintuitiva: quem conseguiu mudar de verdade não planejou a mudança sentado, em introspecção infinita. Quem saiu do ponto A para o ponto B saiu fazendo — descobriu para onde ir durante a caminhada, não antes dela.
Ibarra aponta dois movimentos práticos.
Conversar com gente nova
Buscar pessoas novas para trocar ideia oxigena a sua percepção. E não precisa ser ninguém distante: aquele professor com quem você nunca tomou um café, o colega de outra área, alguém da sua antiga turma. Muita gente está viciada em conversar sempre com as mesmas pessoas — que costumam ter a mesma visão. Uma oportunidade nova quase sempre nasce de uma conversa que você ainda não teve.
É exatamente por isso que o ECOA existe: para ser um lugar de conversa de verdade, olho no olho, num mundo cada vez mais automatizado. Se você quiser começar por aí, deixei um convite no fim deste texto.
Testar microprojetos
O segundo movimento é testar pequenas mudanças antes de dar o salto. Eu vivi isso: nos meus quase 15 anos na TV Globo, antes de pedir demissão para virar professor em tempo integral, comecei dando aula uma noite por semana numa universidade em São Paulo. No semestre seguinte eram três noites; no ano seguinte, todas. O ponto não é o exagero de horas (não recomendo o que eu fiz) — é que aquele microprojeto me deixou testar, na prática, se a nova carreira fazia sentido antes de largar a antiga. Qual é o seu “uma noite por semana”?
Caminho 2: ficar na empresa e mudar por dentro
Nem sempre a resposta é sair. O segundo caminho é permanecer e mudar internamente — o que podemos chamar de intraempreendedorismo. Vale tanto para empresa grande quanto pequena.
Um alerta antes de tudo: se você está num ambiente de trabalho tóxico, com pessoas que estão te adoecendo, o senso de urgência é outro. Aí o caminho não é “com calma”: é procurar o RH, a direção, relatar o que acontece e, se preciso, sair. As dicas a seguir valem para quem está de saco cheio — não para quem está adoecendo.
Para quem pode agir com calma, entra o conceito de job crafting, criado pelas psicólogas organizacionais Amy Wrzesniewski e Jane Dutton (2001). A ideia é simples e poderosa: você pode moldar o próprio trabalho por dentro, em três frentes.
1. Mudar o que você faz
Olhe estrategicamente para a sua função e para as áreas vizinhas. Dentro da Globo, sem mudar de cargo, migrei de projetos da Globo Internacional para o merchandising do Big Brother Brasil — a mesma função, atividade diferente. Foi essa mudança interna que, mais tarde, abriu a porta para uma gerência. Que subárea você poderia propor hoje?
2. Mudar com quem você faz
Duplas, trios, parcerias. Desenhar com quem você trabalha — quem são os seus pares no dia a dia — muda a experiência inteira. Isso enriquece o trabalho e faz você crescer.
3. Mudar como você enxerga o que faz
Essa é a virada mais profunda. Wrzesniewski e Dutton estudaram faxineiros de hospital. Alguns viviam infelizes se enxergando como quem “só recolhe lixo”. Outros ressignificaram: passaram a se ver como parte da recuperação dos pacientes, conversavam com eles, participavam do processo de cura. A atividade era a mesma. O olhar, não. Que trabalho você faz hoje que ganharia outro peso se você o enxergasse pelo que ele realmente serve?
Caminho 3: criar o próprio negócio (e começar pelo mínimo)
O terceiro caminho é criar algo novo — um negócio digital ou físico. Aqui a referência é Eric Ries e A Startup Enxuta (2011), que eu uso no mestrado que coordeno na Espanha. A lição central é o MVP (Produto Mínimo Viável): antes de mergulhar de cabeça, teste a sua ideia com o mínimo possível.
Falo por experiência — e por fracasso. Anos atrás criei com sócios queridos a Acompass, uma escola de qualidade de vida. Fomos pelo caminho oposto ao do MVP: gastamos muito com infraestrutura para só depois testar o mercado. Veio a pré-pandemia e o negócio não foi para frente. A maior lição que tirei desse tombo foi justamente essa: teste com o mínimo, e vá testando. (Se quiser se aprofundar, escrevi sobre como criar um negócio do zero em outro texto.)
Qual desses três caminhos é o seu?
Recapitulando: procurar outro emprego, mudar por dentro da empresa ou criar o próprio negócio. Repare que os três têm a mesma direção — devolver a você autonomia sobre o próprio trabalho, em vez de criar mais dependência.
Mas antes de decidir o que fazer, quase sempre falta um passo anterior: um lugar seguro para dizer, em voz alta, o que você não consegue dizer em outro lugar. É isso que o ECOA oferece.
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