Agendaram uma entrevista de emprego com você. E, em vez de alívio, veio aquela insegurança que aperta o peito: “será que eu sou bom o bastante? Será que eu vou conseguir mostrar quem eu realmente sou?”. Se você já sentiu isso, respira — é mais comum do que parece, e não é sinal de que você não está pronto.
Eu quero conversar com você sobre isso de um lugar específico: o outro lado da mesa. Passei anos entrevistando, aprovando e recusando pessoas — no ambiente executivo da TV Globo, na universidade contratando professores e equipe, e acompanhando centenas de alunos e estagiários que passaram por processos seletivos em todo tipo de empresa. Então o que vem aqui não é teoria de manual. É o que a gente, de fato, olha quando você está do outro lado.
São três dicas práticas. A última parece óbvia, mas quase ninguém pratica — e é a que mais pesa.
Dica 1: toda experiência conta (inclusive a que você acha que não vale)
Talvez você esteja indo para uma entrevista de emprego numa área nova, ou é o seu primeiro emprego, ou você mudou de segmento e sente que tem “pouca experiência”. Aqui vai a virada: você provavelmente tem competências valiosas em lugares que nunca considerou profissionais.
Um exemplo real. Imagine que você coordena um trabalho voluntário na sua igreja — organiza um grupo para servir sopa na rua no inverno. Isso não está no seu currículo técnico, mas escancara liderança: você gerencia pessoas, equipes, recursos, o atendimento de quem vai ser servido. São competências de liderança que qualquer empresa valoriza. O mesmo vale se você toca numa banda (trabalho em equipe, gestão de crise, ensaios), ou se organiza a rotina de uma casa com três filhos (organização sob pressão que muita gente com MBA não tem).
Isso tem um nome no mercado: competências transferíveis. Os recrutadores procuram exatamente por elas, porque mostram que você é adaptável e resolve problema em qualquer contexto (a Exame lista 12 dessas competências mais buscadas). A dica prática: olhe com carinho para a sua história de vida antes da entrevista e traga essas experiências. Não como enfeite — como prova de quem você é.
Dica 2: honestidade não é fraqueza — é maturidade
Parece óbvio, mas na hora do aperto a gente escorrega aqui. Para conseguir a vaga, a tentação é mostrar algo que você ainda não é. O exemplo mais comum são os idiomas: a vaga pede inglês fluente, você colocou “fluente” no currículo, mas sabe que na prática não é bem assim.
A entrevista é o momento de alinhar isso, não de esconder. Algo como: “quero fazer uma ressalva — coloquei inglês avançado, mas ainda é um inglês de sala de aula, não pratico no dia a dia; é questão de tempo, mas prefiro deixar claro”. Você pode achar que está entregando um ponto fraco. Não está. Do lado de quem contrata, essa transparência sinaliza maturidade — e maturidade é raro.
Sempre que precisei contratar, o primeiro critério nunca foi só o técnico. Eu quero trabalhar com gente boa: gente que olha a vida com valores, que se importa com o outro, que tem ética. E tem um lado prático nisso também: se te contratam prometendo algo que você não entrega, a cobrança do dia a dia vira uma ansiedade que adoece. É melhor tudo às claras agora do que arrastar esse peso depois.
Antes da terceira dica, um convite. Se você chegou até aqui, é porque esse assunto mexe com você — porque você se importa com o valor que um trabalho pode ter na sua vida. A ECOA Escuta tem uma conversa gratuita de 15 a 20 minutos pra pensar o seu momento com calma. Sem fórmula, sem julgamento. Marque a sua conversa aqui.
Dica 3: seja você (a história do violão que entrou na Globo)
Essa é a mais importante. Parece clichê, mas quase ninguém pratica: seja você.
Deixa eu te contar uma história. O Ézio foi meu aluno na ESPM, em São Paulo. Brilhante, mas nunca o dos dez — tirava sete, porque a cabeça dele vivia envolvida em mil coisas, banda inclusive. O talento dele era gente: transitava por todos os grupos de uma sala, se dava bem com todo mundo. Ele entrou num processo seletivo pesado da Globo, o Estagiário — três vagas para jornalismo, mais de 20 mil inscritos.
Foi afunilando: 100, 50, 25. Na reta final, pediram uma apresentação de três minutos, sobre si mesmo, sem slide, sem PowerPoint, só criatividade. Ele me ligou desesperado: “Ladeira, o que eu faço?”. A gente conversou uns 20 minutos, e eu só fiz uma pergunta: “Ézio, quem é você?”. Ele foi respondendo, se enrolando, até soltar: “cara, eu sou o cara que está sempre com o violão na mão”. Pronto. “Então vai com o violão.”
Ele foi. No meio de milhares de candidatos engravatados, chegou um “louquinho” com o violão nas costas, fez uma música se apresentando em três minutos e encantou a banca — porque foi autêntico. Ele passou. (Hoje é executivo do Google, mas essa é outra história.)
Não estou dizendo pra ninguém levar violão. Se for você, vá com o violão, com a bateria, com a castanhola, tanto faz. Todas as vezes que entrevistei alguém olho no olho, dava pra sentir quando a pessoa era autêntica. E aqui vai a parte que quase ninguém aceita: se não gostarem de quem você é, é melhor não conseguir a vaga. Porque uma vaga que não combina com você vira sofrimento diário. Autenticidade faz todo mundo ganhar — a empresa e você.
O que quem contrata realmente procura numa entrevista de emprego
Repara no fio que une as três dicas. Elas parecem técnica de entrevista, mas são, no fundo, sobre a mesma coisa: você não precisa se transformar em outra pessoa para ser escolhido. A insegurança lá do começo — “será que sou bom o bastante?” — não se resolve com um truque. Ela se acalma quando você para de tentar ser suficiente aos olhos de todo mundo e começa a se apresentar inteiro, com verdade.
O seu valor não é decidido num “sim” ou num “não” de recrutador. Ele já existe antes de você entrar na sala.
Você não precisa atravessar isso sozinho
Se você está prestes a encarar uma entrevista de emprego e a ansiedade está grande, talvez o que você precise não seja mais uma dica — e sim um lugar pra colocar isso pra fora. A ECOA Escuta existe pra isso: um espaço pra você dizer o que não dá pra dizer em outro lugar, sobre trabalho, carreira e as decisões que pesam.
Marque uma conversa gratuita de 15 minutos. É de graça, sem compromisso, e é só um bate-papo — conta a sua história.
Um abraço, Daniel Ladeira
Leia também: e se o incômodo não for com a entrevista, mas com o emprego inteiro? Vale a pena entender a diferença entre um sonho e uma fuga antes de tomar qualquer decisão. 👉 Largar o emprego para empreender: sonho ou fuga?
