Insatisfação no trabalho: quando mudar de emprego não basta

Domingo à noite. A semana nem começou e já bateu aquela angústia de ter que voltar pro trabalho amanhã. Se você conhece essa sensação, este texto é pra você. A insatisfação no trabalho é uma das coisas mais silenciosas que a gente carrega — quase ninguém fala dela em voz alta, e quem fala costuma receber de volta uma resposta pronta.

Talvez você esteja insatisfeito no emprego de agora. Talvez esteja procurando outro. Talvez esteja sem trabalho nenhum, buscando um recomeço. Seja qual for o seu caso, deixa eu te dizer logo de cara: você não está sozinho. E não, isto aqui não vai ser mais um texto de motivação de para-choque de caminhão.

Muito prazer — sou o Daniel Ladeira, professor universitário, e este é o ECOA Escuta. Um espaço onde a gente conversa sobre o que normalmente fica preso na garganta. Sem púlpito, sem julgamento, sem diagnóstico. Hoje quero conversar sobre trabalho, sobre essa vontade de mudar de carreira, sobre esse processo todo — que é complexo, eu confesso, mas que dá pra atravessar com um pouco mais de clareza.

O que te ensinaram sobre insatisfação no trabalho

Quando a gente começa a sentir que o trabalho não cabe mais, aparece um monte de conselho. Tem o caminho motivacional (aquele vídeo que promete virar sua vida em cinco minutos). Tem o pragmático (faz o currículo, atualiza o LinkedIn, pronto). Tem até o espiritual. Nada disso está errado. Mas quase sempre falta uma peça — e é justamente ela que separa “trocar de emprego” de “mudar de verdade”.

Quero trazer aqui uma reflexão um pouco diferente, que encontrei lendo um autor que virou professor como eu: William Bridges, que faleceu em 2013. No seu trabalho sobre transições, Bridges faz uma distinção simples e libertadora.

Mudança e transição: por que trocar de emprego às vezes não resolve

Para Bridges, mudança é uma coisa; transição é outra.

mudança é externa. “Vou mudar de emprego”, “vou mudar de cidade”, “vou mudar de país”. É algo que acontece do lado de fora, tem data marcada no calendário e, curiosamente, costuma ser a parte mais fácil. Amanhã eu troco de empresa e pronto: a mudança aconteceu.

transição é interna. Ela acontece dentro da gente, é mais lenta e não tem data fixa. Pode levar meses. Pode levar a vida inteira. E aqui está o ponto que muda tudo: dá pra ter a mudança sem a transição. Dá pra trocar de emprego e continuar carregando exatamente o mesmo vazio — porque a mudança externa não apaziguou aquilo que estava, de verdade, te chamando por dentro.

É por isso que tanta gente muda de empresa, de função, às vezes de país, e continua com a mesma angústia de domingo à noite. A mudança aconteceu. A transição, não.

Se você está exatamente nesse meio de caminho e sente falta de um lugar pra conversar sobre isso com calma, guardei um convite pra você no fim do texto. Sem compromisso nenhum.

As três fases de toda travessia

Bridges diz que a transição acontece em três etapas — e elas fazem muito sentido quando a gente olha pra própria vida.

A primeira é o fim. Parece estranho começar pelo término, mas é isso mesmo: algo do que você era precisa, entre aspas, “morrer” pra que o novo possa nascer. Quando eu e a Carol viramos pais da Zoe — que agora, em 2026, fez 10 anos —, eu tive que encerrar a minha vida de solteiro, de filho, pra começar a ser pai. Ninguém vira pai só porque o bebê nasceu; tem uma travessia interna aí.

A segunda é a zona neutra. É o entremeio, aquele território sem chão firme onde as coisas ainda não são o que vão ser. É a fase que todo mundo quer atravessar correndo — e é justamente onde a gente amadurece.

A terceira é o recomeço. É quando você finalmente entra no novo por dentro, e não só no papel.

Um mapa prático: o que precisa ficar pra trás

Olhando pra vida profissional, isso vira um exercício bem concreto. Deixa eu te contar uma história.

Trabalhei quase 15 anos na TV Globo, em São Paulo, na área comercial. E, ainda dentro da Globo, eu tinha um plano: um dia fazer mestrado e dar aula. Em 2006 entrei no mestrado em Comunicação. No meio do caminho, junto com outros colegas e com apoio da Fundação Roberto Marinho, comecei um projeto de alfabetização de adultos: a gente dava aula no horário de almoço pra equipe da faxina, numa escola pública ali na Zona Sul.

Foi aí que algo virou dentro de mim. Comecei a fechar o ciclo do “aluno que sempre fui” e a nascer como professor. Criei até um e-mail novo — “professorladeira” — que uso até hoje, e brincava com a Carol: “agora eu sou professor, olha meu e-mail”. Parece bobagem, mas foi um gesto de transição. Minha postura mudou, meu jeito de me comunicar mudou, meu olhar mudou. Daí veio o convite pra dar aula numa universidade, depois a ESPM, e por fim a mudança pra Portugal, onde moro hoje, dando aula numa universidade na Espanha.

Então ficam duas perguntas práticas. A primeira: quem do “você do passado” precisa ficar pra trás pra que o novo aconteça? Que porta você precisa fechar?

A segunda: quais são os primeiros passos concretos? Você já tem currículo? Não tem? Então a transição começa aí: “vou escrever meu currículo”. Tem LinkedIn? Falta formação, falta curso? Vamos atrás. Marcar um café com alguém, mandar aquela mensagem, conversar com um antigo professor. Esses primeiros passos são a tal da zona neutra — e ela raramente responde do dia pra noite. Faz parte. Dá até pra se divertir no processo.

Do ordinário nasce o extraordinário

Tem uma coisa que aprendi na marra: o extraordinário quase sempre acontece dentro do ordinário. Se eu não faço a parte simples, difícil o resto aparecer.

Quando descobri a universidade onde dou aula hoje — a UTAMED, com sede em Málaga, na Andaluzia —, ela tinha acabado de nascer. Pensei: “quero trabalhar aqui”. Mandei currículo, ninguém respondeu. Procurei gente no LinkedIn, ninguém respondeu. Descobri que por trás da universidade estava um empreendedor chamado Paco. Mandei convite de conexão, ele não aceitou. Aí paguei o LinkedIn Premium só pra conseguir enviar uma mensagem, escrevi um textão, mandei — e cancelei a assinatura no mesmo dia. Esqueci daquilo.

Uns dois meses depois, eu estava justamente na Espanha com a Carol e a Zoe quando chega a mensagem: era o Paco. “Daniel, me passa seu número que vão te ligar.” Ligaram. Hoje coordeno dois mestrados por lá. Se eu não tivesse feito o ordinário — pesquisar, insistir, mandar a mensagem —, eu simplesmente não estaria lá.

Foi assim na Globo, na ESPM, em vários lugares. O extraordinário aparece quando a gente coloca a mão na massa no ordinário.

Saber quem você é muda a caminhada

E aqui entra a parte mais pessoal — e você não precisa concordar com ela pra levar algo dela.

Quem acompanha o ECOA já sabe: aqui não tem púlpito, mas o meu olhar é o de quem segue Jesus. Não vim pregar nada; só sou transparente sobre o lugar de onde falo. E uma coisa que aprendi nessa caminhada me ajuda em qualquer transição: saber quem eu sou.

Tem uma cena que me marca, a do batismo, quando uma voz diz “este é o meu filho amado, em quem tenho prazer”. Na minha leitura, é como se aquilo também fosse dito pra mim. E isso me dá uma segurança estranha pra sonhar e agir: se aquilo que eu quero construir tem um norte que faz bem, que ajuda outras pessoas, que deixa um impacto bom no mundo, então dá pra caminhar sabendo que existe chão embaixo dos pés. Você pode não crer nisso — tudo bem. Mas quem sabe fica como um insight: caminhar sabendo quem você é muda tudo.

Duas perguntas pra levar com você essa semana

Fica aqui a conversa aberta. Se puder, responde pra você mesmo — ou escreve pra gente nos comentários:

  1. O que de você, do seu passado, que ainda é o seu presente, precisa “morrer” pra que essa nova fase aconteça?
  2. A partir disso, quais são os primeiros passos práticos que você pode dar já esta semana?

Não são perguntas pra responder com pressa. São perguntas de autoconhecimento — daquelas que valem uma travessia inteira.

E se elas mexeram com você, talvez seja sinal de que uma boa conversa faça bem agora. Deixo aqui o formulário de pré-inscrição — é só o começo de um papo, sem pressa e sem compromisso.

O que é o ECOA Escuta (e por que a pré-inscrição não te compromete a nada)

O ECOA Escuta é um espaço de conversa e escuta em pequenos grupos. Eu sou o facilitador: levo conteúdo, levo provocação, mas todo mundo ali dialoga num ambiente seguro, sem julgamento e sem diagnóstico. Não é terapia, e eu não sou pastor nem nenhuma autoridade religiosa — não faço parte de igreja nenhuma. Só sigo Jesus, e não vou te doutrinar com isso.

Se você, como eu, não faz parte de nenhuma igreja mas sente falta de uma comunidade pra conversar de verdade, o ECOA pode ser um bom lugar.

Funciona assim: você preenche o formulário de pré-inscrição — sem compromisso nenhum. Eu olho com calma os perfis e, de forma artesanal, vou montando pequenos grupos. Depois te chamo pra gente conversar individualmente e te explicar como tudo funciona. O primeiro passo é só começar essa conversa.

👉 Quero fazer minha pré-inscrição no ECOA Escuta

Nos vemos por aqui — nos próximos textos, nos comentários e, quem sabe, num dos grupos de escuta. Um forte abraço. Daniel Ladeira

2 comentários em “Insatisfação no trabalho: quando mudar de emprego não basta”

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