Entrevista de emprego: eu fiz o contrário de todo mundo
Eu cheguei na frente do empregador, a conversa correu bem, a vaga era minha. E eu disse não.
Isso aconteceu mais de uma vez na minha jornada profissional. Não porque eu tivesse outra proposta melhor no bolso, nem por vaidade. Foi porque, ali dentro daquela sala, eu percebi uma coisa que eu não tinha percebido antes de entrar.
Se você está procurando trabalho agora, ou vai passar por uma entrevista de emprego nas próximas semanas — seja para uma empresa nova, seja para um cargo diferente dentro da que você já está —, quero deixar aqui uma reflexão que talvez mude a forma como você entra nessa conversa.
Antes de tudo: esta reflexão não é para todo mundo
Preciso ser honesto logo de início, porque seria fácil escrever este texto como se todo mundo tivesse as mesmas condições. Não tem.
Existem momentos na vida em que a pessoa precisa desesperadamente de um trabalho. Tem boleto vencendo, tem comida para colocar na mesa, tem gente dependendo dela. Nesse momento, não há muito espaço para filosofar. Se aparecer um trabalho lícito e ético que paga as contas, aceite. Ponto.
O que escrevo aqui é para o degrau seguinte — e você vai chegar nele. É para o momento em que você pode, de fato, escolher.
O primeiro erro: disparar currículo para todo lado
Quando alguém está buscando uma oportunidade, seja o primeiro emprego, seja uma saída de um trabalho que já não faz sentido, o movimento mais comum é o mesmo: disparar centenas de currículos para todas as vagas que aparecem, em todas as empresas, sem critério nenhum.
Eu vejo isso como o primeiro erro. E não é por causa da taxa de resposta, que já é baixa. É por uma razão mais funda: quem dispara currículo para todo lado ainda não escolheu onde quer trabalhar, onde quer servir, onde quer fazer diferença.
Deixa eu explicar com uma imagem simples.
Imagine que a sua descrição de função tem dez tarefas. Você faz as dez, e faz bem. Aí termina. Se, ao terminar, você não tem a menor vontade de ajudar um colega, de doar um pouco mais do seu tempo, de se envolver com algo além do combinado — isso quer dizer alguma coisa. Quer dizer que aquele lugar não faz diferença para você.
Uma pessoa de excelência dá conta das dez funções e ainda quer se meter em mais. Não por obrigação nem por bajulação. Porque quer. Porque dá prazer. Porque enxerga que aquilo importa no mundo onde ela está.
Quando você entrega currículo sem se perguntar “essa empresa faz sentido para mim? eu vou querer entregar a mais se eu entrar?”, a chance de infelicidade é enorme. Você pode até ser contratado. O problema começa depois.
Como foi comigo: nenhuma vaga veio de vaga aberta
Em 2020 eu pedi demissão da ESPM, em São Paulo, e vim com a minha família para Portugal. Precisei recomeçar profissionalmente do zero, em outro país.
Olhando para trás, percebo uma coisa curiosa: nenhuma das oportunidades que eu construí aqui veio de uma vaga anunciada. Nenhuma.
Universidades públicas portuguesas onde atuei como professor convidado, o ISEC no Porto, o Politécnico do Cávado e do Ave em Braga, o Politécnico de Viana do Castelo, a UTAMED na Espanha, a FGV, o centro de aprendizagem O Mundo Somos Nós — todas surgiram do mesmo movimento. Eu olhei, vi um programa que me interessava de verdade, e mandei mensagem. Procurei no LinkedIn. Bati na porta.
E deu match. Deu match justamente porque eu queria muito estar ali, e porque eu tinha feito antes o exercício de imaginar se aquilo faria sentido na minha vida.
O O Mundo Somos Nós, onde trabalhei nos últimos dois anos, é um bom exemplo disso. Fica em na região de Braga, em Portugal. É um centro de aprendizagem onde crianças, jovens e adultos aprendem individualmente dentro de um espaço conjunto de partilha e pesquisa, com uma proposta pedagógica que bebe de fontes como Krishnamurti, Forest School, Montessori e Reggio Emilia. Recebe investigadores de vários países interessados no modelo.
Por que eu me envolvia mais do que a minha função pedia ali? Porque era um trabalho com propósito de educação, de propor outra coisa ao mundo. Eu terminava cansado, claro. Mas eu queria estar lá. Aconteceu o mesmo na TV Globo, e acontece hoje na coordenação de mestrados e na investigação.
A entrevista de emprego é uma via de mão dupla
Aqui está o ponto que quase ninguém diz.
Quando você está numa entrevista de emprego, não é só quem está do outro lado da mesa que está escolhendo. Você também está. Você também tem o direito, e eu diria a responsabilidade, de decidir se quer ou não trabalhar naquele lugar.
Cada pessoa carrega uma combinação própria de talentos, dons e conhecimento. Esse perfil raro que você tem vai fazer sentido em algum projeto, em alguma empresa, em algum lugar. Mas para isso encontrar o encaixe, você precisa escolher — e não apenas ser escolhido.
Então aproveite a entrevista. Faça perguntas. Investigue. Tire suas dúvidas. Não fique só respondendo.
Eu digo isso de quem já esteve do outro lado da mesa contratando. As pessoas que mais me encantaram em processos seletivos foram exatamente as que me perguntaram coisas. As que quiseram entender a fundo a atividade. As que me colocaram na parede para compreender melhor onde estavam entrando. Isso nunca me pareceu atrevimento. Me pareceu seriedade.
Então por que eu recusei
Voltando ao começo.
Eu recusei porque, em alguns casos, eu não tinha feito a curadoria antes. Fui atrás de uma oportunidade sem ter parado para pensar se ela cabia na minha vida.
E em outros casos eu recusei porque, chegando lá e conversando olho no olho, eu senti: aqui eu não vou conseguir entregar a mais. Aqui vai ser só um trabalho para receber no fim do mês.
Não há nada de errado em ter um trabalho assim. Muita gente precisa disso, e é legítimo. Mas se você quer mais do que isso, então a lição de casa é sua: escolher o lugar antes de pedir para entrar nele.
Se o seu caminho for criar o próprio negócio, o princípio é o mesmo. Nos anos em que atuei na incubadora de negócios da ESPM, e depois em projetos no Porto e na Espanha acompanhando empreendedores, eu aprendi a reconhecer uma coisa: quando a pessoa tem aquele brilho nos olhos, é porque o projeto faz sentido na vida dela. E isso não se finge.
O que fazer a partir de hoje
De forma prática, três movimentos:
Primeiro, escolha os lugares antes de enviar qualquer coisa. Menos candidaturas, mais escolhidas. Vinte bem pensadas valem mais do que duzentas disparadas.
Segundo, se não houver vaga aberta no lugar onde você quer estar, mande mensagem mesmo assim. O LinkedIn existe para isso. Se for um trabalho presencial, vá até lá e mostre interesse.
Terceiro, entre na entrevista disposto a perguntar. Você está avaliando também.
E fica a pergunta que eu deixo sempre, porque ela costuma abrir mais do que qualquer conselho: você está procurando um emprego, ou está fugindo do que você tem hoje?
São coisas muito diferentes. E a resposta muda o caminho inteiro.
Quer conversar sobre o seu momento profissional?
O ECOA Escuta é um espaço para falar do trabalho como aquilo que ele é de verdade: uma questão existencial, não um problema de desempenho. São de 15 a 20 minutos, olho no olho, sem custo. Sem púlpito, sem diagnóstico, sem julgamento. Só escuta.
Até breve, te espero para conversar 🙂
Daniel Ladeira
Doutor em Comunicação pela USP. Mais de quinze anos de docência universitária, coordenador de pós-graduação na UTAMED (Málaga) e mais de uma década no Grupo Globo, onde chegou a gerente de operações comerciais. Vive entre Braga e Málaga.
